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Recentemente têm surgido as questões: o que tem
de especial o Noborigama? porquê o Noborigama está ligado à
identidade da cerâmica em Cunha?
O Noborigama é a forma final e a mais sofisticada técnicamente
do forno arcaico, a lenha,de alta temperatura no Extremo Oriente. Evoluindo
de uma linhagem de fornos que vem da China, adquiriu no Japão seu maior
refinamento, associado tal como o Anagama à cultura Zen.
A sofisticação técnica vem da funcionalidade ligada
à otimização na economia de combustível e
organização na carga, descarga e operação.
Trata-se de um forno ascendente, em degraus em geral apoiados num declive
natural. Desenvolve-se num eixo longitudinal, numa sucessão de
abóbadas transversais em arco semi-circular. Tem à cabeça
uma fornalha onde queima o fogo principal que pode durar mais de metade
da queima. À fornalha são ligadas as câmaras (abóbadas)
em sucessão, terminando na chaminé. Dentro do forno o fogo
percorre um caminho semelhante a um dragão ondulante. O calor gerado
na fornalha passa por todas as câmaras numa graduação
decrescente de temperaturas. Quando a primeira câmara chega perto
da temperatura-alvo, digamos 1300 graus, um pouco de lenha diretamente
na câmara com uma ou duas horas de queima faz o restante. O processo
se repete sucessivamente em cada câmara, até todas terem
maturado. As câmaras que vão ficando para trás são
protegidas do ar frio exterior e deixadas repousar. Em cada momento há
sempre um setor do forno onde as coisas estão acontecendo, na conquista
da temperatura. Quando a última câmara atingiu a temperatura
desejada, a queima está concluída: trabalho árduo,
desgastante mas que nos renova por dentro.
As câmaras enfileiradas com as entradas lado a lado facilitam a carga
e descarga de peças por equipes de várias pessoas, funcionando
o Noborigama muito bem como um forno grupal e sendo um bom catalizador de
uma vida comunitária.
Na queima a lenha se consegue a interpretação de processos alquímicos
e telúricos, recriando o que naturalmente acontece debaixo da terra
e que os vulcões nos testemunham.
Gostam os ceramistas de forno Noborigama de acreditar que existe magia na
sua atividade, que existe rito e liturgia. O apelo cultural do ciclo que se
completa no forno Noborigama é forte, e surpreendente para quem vem
da cidade, tanto pelo processo como pelo resultado. Podemos dizer que o Noborigama
está ligado a uma vida rural e que é um elemento cultural na
contramão da tendência atual para a globalização
banalizante da cultura de massas.
Por isso Cunha tem a possibilidade de ser um caso paradigmático de
formas de viver alternativas à saturação das grandes
cidades. O primeiro passo pioneiro nesse sentido foi dado há trinta
anos num matadouro desativado. Ali se buscou a utopia e ali se abriram as
portas de Cunha para novas possibilidades de desenvolvimento. Ali se praticou,
não a repetição de coisas conhecidas mas se orquestrou
o impacto de uma cultura antiga numa cultura nova. Daí nasceu a nova
cerâmica de Cunha há 30 anos. Os pressupostos do início
continuam válidos. A criatividade, a pesquisa e a vivência do
processo se praticam ainda hoje. Uma certa forma de ver o trabalho, centrada
no Noborigama como uma espécie de templo onde se opera uma transformação
fundamental continua sendo o traço de união entre os cinco ateliers
mais antigos de Cunha. Acredito que possuímos a maior concentração
de fornos Noborigama do continente Sul-Americano, um grupo de pessoas que
vieram do Japão, Portugal e S. Paulo e que de várias formas
interagiram nos anos 70 e uma segunda geração totalmente Cunhense
que encontrou no Noborigama a resposta ao declinar de uma época em
que as paneleiras sucederam aos Tupi-Guaranis como representantes da cerâmica
de Cunha.
A cerâmica pode continuar sendo um veículo formativo da juventude
de Cunha. A abertura dos Noborigamas à atividade formativa pode trazer
novas gerações para o mundo da cerâmica em Cunha. A construção
de um Noborigama com fins sobretudo educativos em área pública
pode ser um próximo passo. Outro seria a abertura ao intercâmbio
internacional com os círculos da cerâmica no mundo. Tudo isso,
se tivermos vontade e alguma sorte pode começar a acontecer no ano
de 2005.
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